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Viagens por dentro dos dias

Blog sobre tudo e sobre nada. Em particular, em torno de literatura, arte, viagens.

Blog sobre tudo e sobre nada. Em particular, em torno de literatura, arte, viagens.


01.09.24

— Se fôssemos muito amigos poderíamos trabalhar para endireitar o mundo.

— Isso é o que tu dizes. Era preciso muita força. O mundo não se endireita com uns ramos de flores ou com um abraço.

— Pois não. Tem de ser com muita força. Talvez mesmo à paulada.

— À paulada não é jeito de se fazer nada de bom.

— Mas com rezas também não. Olha lá os padres, a rezar noite e dia, e o mundo está cada vez mais torto.

— Talvez tenhas razão. Mas eu não me meto em política nem em religião.

— Porquê? Tens medo que te apalpem a bochecha?

— Não tem nada a ver com medo. A política e a religião são temas para iniciados. Não vês os padres que antes de o serem têm de frequentar o seminário? E os políticos têm de frequentar as juventudes partidárias.

— E daí?

— Daí que juventudes partidárias fazem-me lembrar as juventudes hitlerianas e a Mocidade Portuguesa, masculina e feminina. Nada de misturas para a vida não se contaminar.

— Tens pinta de político, mesmo que negues: discursos ocos e redondos.

— Estás parvo, ou quê?

— Pode ser que sim. No entanto, mais vale um parvo na mão que dois a voar, não é o que dizem?

— Não, não é o que dizem. Confundes tudo.

© António Garcia Barreto


05.08.24

Moçambique. Caminho sem destino pelo centro de Lourenço Marques. A guerra instalou-se aqui há muito tempo. Talvez me sente na esplanada do café e peça um uísque com gelo. Está muito calor apesar de ser noite. Sento-me na esplanada, olho à minha volta. Não conheço ninguém, ninguém me conhece. Há um vazio dentro de mim. Não sou daqui, vim do outro lado do mundo onde deixei amigos e família. Fico sentado seguindo o movimento das pessoas. Talvez descubra um amigo, um camarada de armas, que tivesse viajado comigo no barco. Há militares, mas não os conheço. Tomo atenção às conversas das pessoas que ocupam as mesas ao lado. Falam de basquetebol, ao que me apercebo. Prefiro futebol. Decido ir para casa esconder o sono na almofada da cama. Apanho o machimbombo que sobe as ruas deixando para trás um rasto de fumo negro e uma trepidação de carro velho. Desço à boca do bairro indígena, mas não me aventuro por aí, vou para a flat pela rua paralela ao bairro, onde me espera uma osga no canto da parede e um morcego pendurado na corrente da banheira. Podia ser pior.


10.01.24

O rapaz ia pela rua a mastigar pastilha elástica. Entrou na farmácia para levantar um medicamento para a avó. De repente, a pastilha colou-se-lhe ao céu-da-boca e à língua. Não conseguia abrir a boca, não conseguia falar. Fez um gesto para o velho farmacêutico, apontando a língua presa. O homem procurou os óculos de ver ao perto, mas não os encontrou. Aproximou-se do rapaz, meteu-lhe os dedos na boca e arrancou-lhe a língua.

António Garcia Barreto, "Contos Curtos"

Trabalhar e descansar

Estórias que se contam


22.11.23

Certo dia um homem viu o historiador Alexandre Herculano, de enxada na mão, a trabalhar umas terras na sua Quinta de Vale de Lobos. Cumprimentou-o.

- Bons-dias, senhor Alexandre Herculano. Então, a trabalhar logo de manhã.

- Não estou a trabalhar, estou a descansar - respondeu Herculano.

Dias depois o mesmo homem voltou a passar pelo mesmo local encontrando Herculano sentado numa cesta de apanha de azeitona, encostado a uma porta.

- Bons-dias senhor Alexandre Herculano. Hoje está a descansar.

- Não estou a descansar, estou a trabalhar.

Um livro

Jorge Luis Borges


03.03.23

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"Um livro é uma coisa entre as coisas, um volume perdido entre volumes que povoam o indiferente Universo, até que encontra o seu leitor, o homem destinado aos seus símbolos. Acontece então a emoção singular chamada beleza, esse mistério belo que nem a psicologia nem a retórica decifram."

Jorge Luis Borges in BIBLIOTECA PESSOAL, Prólogo, Quetzal, Lisboa, 2022 (tradução de Cristina Rodriguez e Artur Guerra).


01.12.22

- Éramos todos bons rapazes, mas uns piores do que os outros - confessou o Padre Angústias, num dia em que se deu a rememorar o seu passado no seminário. - O pior de todos chegou a bispo. E se não fosse um jantar demasiado pesado, a seguir ao qual se tomou de amores por uma prima virgem, do lado do zodíaco, teria conseguido o barrete cardinalício.

(agb)


20.10.21

– Como é que se chama, perguntei ao técnico brasileiro que fazia uma reparação electrónica.

– L e L, ouvi pronunciar.

– L e L?

– Sim.

– Escreva aqui o nome, por favor.

E ele escreveu: Eliel.

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