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12
Abr21

A biblioteca

por António Garcia Barreto

Um dia entrei numa biblioteca onde só havia dois livros. Um era de física quântica e o outro de filosofia espacial. Não eram livros que me interessassem. Voltei à biblioteca várias vezes na esperança de encontrar outros livros. O único empregado de serviço disse-me que não havia outros livros disponíveis. Aqueles dois tinham saído incólumes de um incêndio que dizimara toda a biblioteca. Apenas aquela sala fora reconstruída. Esperavam-se apoios estatais.
Fiz saber através da imprensa e das redes sociais o meu desagrado pela situação, que logo recebeu milhares de apoiantes. Perante o desconforto dessa situação inusitada, e o prejuízo para a Cultura do país, lembrei-me de enumerar uma série de obras que deviam constar no acervo da biblioteca. Iniciei uma campanha pedindo às pessoas para lá entregarem um dos livros por mim listados, ou outros que entendessem necessários e interessantes. Escrevi um email que enviei a amigos e amigos de amigos dando-lhes conta da existência dessa biblioteca singular e aquilo que cada um deles podia fazer por ela.
Ao fim de um ano, a biblioteca tinha mais de vinte mil livros, contando já com leitores habituais, que iam enriquecendo o acervo e recomendando-a a novos amigos.
Dois anos depois, ampliada a sala e feitas obras complementares, o presidente do país inaugurou a biblioteca com pompa e circunstância, seguido pelos políticos do costume, a quem agradeceu a valiosa obra em boa hora levada a cabo pelo Governo. Levantando o pano que cobria a placa comemorativa surgiu o novo nome da casa dos livros: Biblioteca Presidente Dom De Lucas. A mim foi-me vedada a entrada ainda hoje não sei porquê. Talvez tudo não tenha passado de uma ficção literária.

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12
Abr21

Viajar

por António Garcia Barreto

As viagens libertam-nos da opressão do quotidiano vivido no mesmo lugar. Também se pode viajar à volta do umbigo, sem sair do mesmo sítio, sonhando realidades irreais. Mas não é a mesma coisa. São viagens sem cheiro, sem a cor adequada, sem formato, sem adrenalina, sem a surpresa da aventura. De qualquer forma, mais vale viajar pelo sonho do que estacionar a vida num ancoradouro sem água. Aí morrem os barcos que o mar destruiu e esqueceu.

29
Mar21

Medo

por António Garcia Barreto

Havia uma casa velha, derrotada. Eu estava dentro da casa e tinha medo. Medo de quê? Não sei explicar. Não sabia explicar. A verdade é que estava sozinho. Eu e o espelho do corredor que me devolvia uma figura assustada. Estar sozinho, em criança, mete medo. Do exterior vinham uns sons: piar de galinhas, cantar de galo, a espaços, água a pingar e não era chuva. Talvez uma torneira mal fechada. Depois ouvi duas vozes de adultos, homem e mulher, que gritavam um com o outro. Mas não estavam dentro de casa. Dentro de casa estava apenas eu, sozinho, cada vez com mais medo sem saber por quê. Foi então que um anjo se aproximou de mim. A minha mãe costumava falar de anjos. E este anjo tinha o rosto de minha mãe.

- O que se passa, filho?
- Tenho medo.
- Medo de quê?
- Não sei explicar. Medo que o sol se esconda e não apareça mais.
- Isso não vai acontecer nunca, meu filho.


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