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mar de magoito

Blog de António Garcia Barreto. Literatura & etc.

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Apreciação do Júri do Prémio Literário Orlando Gonçalves...

… ao romance vencedor, intitulado «O Discreto Cavalheiro».

19.09.21

O júri considerou por unanimidade distinguir a obra que lhe pareceu possuir maior qualidade para merecer o prémio. Considerou ainda haver outras obras na condição de serem distinguidas. Ao todo foram submetidos a concurso onze originais, um ou outro volumoso, com umas centenas de páginas. O do nosso premiado não sendo dos mais extensos revela uma perfeita eficácia narrativa assente na sobriedade e solidez da linguagem e na vivacidade da ação. A nível de enredo francamente integrado na intriga da tipologia do policial, o texto apresenta interesse elevado na trama investigativa, com uma galeria de personagens bem modelada, e a ação dominada e permanente atenção dos leitores pelos episódios posteriores. Neste último aspecto, acho que, nos dias de hoje, é um caso raro de leitura aquela que se faz de uma assentada sem pausas nem adiamentos. Possuindo o segredo da complexidade através da simplicidade de construção, a narrativa apresenta ainda alguns aspetos que na opinião do júri demonstram alguma originalidade, nomeadamente: a existência do triplo autor que é simultaneamente narrador, personagem e detetive. As motivações psicológicas do crime das personagens envolvidas, a mescla bem desenhada de ambientes urbanos e palacianos, Lisboa e Castelo de Vide, nomeadamente. Ambiguidade de género literário, ficção ou policial, ficção policial ou policial ficcionado? Como sabem, o policial é raro na literatura portuguesa de ficção, havendo alguns exemplos na obra de Cardoso Pires e Lobo Antunes. Outro aspeto que nos parece original é o domínio dos mecanismos detetivescos, a gestão aguda do suspense e serenidade corajosa do narrador-personagem coroados na conclusão imprevista do processo. E, por fim, há uma solução inédita de um homicídio que todos desejam arquivar e cujo arquivo se mantém mesmo depois de desvendado (o homicídio).

05.07.21

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Quando Osvaldo Ventura abandonou o seu país, aos dezanove anos, nunca supôs que, quarenta anos depois, o seu passado o chamasse de volta para lhe revelar que a vida verdadeira não foi só a que viveu, mas a que deixou para trás esquecida na vila de onde era natural. Tudo sublinhado por uma frase que não teve oportunidade de ler:

-- É perigoso brincar com os beijos.

Romance. Edição em formato de papel e em ebook. Mais informações em Astrolábio Edições.

 

15.05.21

... é nome da personagem principal do romance "É Perigoso Brincar com os Beijos", uma edição da Astrolábio Edições.

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Quando Osvaldo Ventura abandonou o seu país, aos dezanove anos, nunca supôs que, quarenta anos depois, o seu passado o chamasse de volta para lhe revelar que a vida verdadeira não foi só a que viveu, mas a que deixou para trás esquecida na vila de onde era natural. Tudo sublinhado por uma frase que não teve oportunidade de ler:

- É perigoso brincar com os beijos.

06.05.21

Olhei para Conchita estendida no areal, em reduzido biquíni, e não senti sombra de desejo. Não me interroguei sobre as razões desse desencanto, nem lhe conferi qualquer significado. Entre mim e ela todas as descobertas estavam cumpridas, todas as emoções experimentadas, todos os mistérios desvendados. O fogo que lavrara forte à superfície da pele extinguira-se, entrara numa fase de rescaldo. Era natural. Sem amor não é possível amar. De início, fora diferente. Pensar em Conchita excitava-me como nos meus tempos de adolescente. Era uma mulher lindíssima, sensual, com traços de crioula, de olhos que escondiam segredos por revelar, senhora de um corpo a pedir elogios.

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De personalidade forte, percebia-se que estava habituada a lidar com a vida sem subterfúgios nem cenas melodramáticas. O problema é que as mulheres como Conchita cansavam-me, desiludiam-me, pouco depois de conhecê-las. Tinham gostos e interesses aparentemente supérfluos, gastavam demasiado dinheiro em roupas e objetos inúteis, não aprofundavam conversas, não falavam do passado nem perspectivavam o futuro. O presente circunscrevia-se a frases feitas, adereços de moda e divertimento. Viciada em jogo, sapatos e roupa, Conchita fumava bastante e bebia vodkas-martinis a toda a hora. O seu anfitrião preferido era o barman do hotel. Eu olhava para ela e via-a sempre de copo numa mão e cigarro na outra. Gastava muito tempo e dinheiro no cabeleireiro, no ginásio e no spa. Uma vez perguntei-lhe, num momento de distração, o que a levava a fechar-se numa sala a tresandar a suor de marcas diferentes e a correr, como uma louca, numa passadeira; ou a deixar que lhe amassassem o corpo com unguentos e pedras, quando a natureza fora simpática com ela. Respondeu-me que adorava o exercício físico, e a massagem reabilitava-a. Compreendi. Além disso, acrescentou, gastar dinheiro aumentava-lhe o astral. Aqui não compreendi tão bem. Aumentava-lhe o astral? Bom, deixei de lado. O remate da conversa fez-me pensar. Gastar dinheiro fazia-a esquecer a infância infeliz, em que faltara tudo, até o amor. Deve ter sido a única vez que falou verdade comigo. Não a criticava. Ela podia fazer da vida o que bem entendesse, desde que não o fizesse com o meu dinheiro. Disse para comigo: Osvaldo, vamos acabar com isto. Foi bom, mas very expensive. A propósito: Osvaldo Ventura sou eu. Muito prazer.

Astrolábio Edições, Fev. 2021

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