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Viagens por dentro dos dias

Blog em torno de literatura, arte, viagens, etc.

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VOOU COMO MATIAS PEREZ

Algo que desaparece, que se perdeu para sempre, sem remédio.

06.02.23

Matias Perez (Peres) foi um marinheiro português que em meados do séc. XIX se radicou em Havana, Cuba, com um negócio de fabricação de panos para velas de navios. O negócio progrediu muito bem, de tal forma que lhe chamavam «O rei dos toldos». Mas a sua paixão era voar, sobretudo depois de conhecer o balonista francês Eugene Godard. Experimentou fazer alguns voos em balão com Godard, a quem chegou a comprar um aparelho. Havia sempre uma multidão a assistir a essas subidas em balão de ar quente. O seu último voo, porém, correu mal. As condições atmosféricas não eram as melhores, mas Matias decidiu voar. Nunca mais foi visto. Nem ele nem quaisquer vestígios dessa viagem fatídica. Em Cuba ainda hoje se usa a expressão «voou como Matias Perez» quando alguém se quer referir a um desaparecimento, ou a algo que se perdeu para sempre, sem remédio.

(do livro a publicar O POVO FAZ A LÍNGUA. Registado no IGAC e na SPA. Interdita a cópia)

16.01.23

A gaja entrou-me no quarto como se me quisesse comer todinho, ali assim, desprevenido, como vim ao mundo, mas em formato atualizado. Fiquei a vê-la avançar de olhos brilhantes, seduzindo-me com a sua vozinha estrídula e as suas pernas longas. Quando se aproximou puxei o gatilho do spray e matei-a. Detesto melgas.

© António Garcia Barreto

09.12.22

Numa viagem de férias em companhia de amigos, num velho VW carocha, muito antes da existência do Espaço Schengen, ao atravessarmos a fronteira entre a França e a Itália, idos do Mónaco e de Menton, a polícia mandou-nos parar. Simpáticos, os guardas ficaram muito admirados de verem portugueses por ali. Éramos uma espécie rara, naquela época, fora do espaço ibérico. Fizeram-nos algumas perguntas e evocaram o vinho do Porto, mostrando-nos que conheciam alguma coisa de Portugal (estranhei não evocarem o Benfica, que tinha sido bicampeão europeu). Como o carro ia na reserva ou quase, perguntámos se o posto de combustível ficava longe. A resposta foi:

– Ventimiglia.

Trocámos olhares, um pouco desolados.

– Vinte milhas são mais de trinta quilómetros – comentámos, em uníssono. – Vai ser apertado.

Metemo-nos à estrada, devagar, para poupar combustível. Ainda não tínhamos andado cinco quilómetros quando vimos um marco toponímico anunciando a próxima localidade: Ventimiglia. A nossa tradução à letra de italiano e o desconhecimento da região produziu asneira. Mas deu para andar todo o dia a rir à conta de ventimiglia.

(agb)

30.11.22

I

Conheço uma pessoa que tem um gato a que deu o nome de Ramiro; e um cão a que chamou César. Ela chama-se Zefa Sardinha.

II

— Eh, pá, já o campeonato vai a meio e ainda não obtivemos um golo. Até parece mentira — disse Bruno.

— Tens de convir que é muito difícil enfiar uma bola redonda numa baliza rectangular. São geometrias diferentes — retorquiu Carvalho, cofiando a melena.

(agb)

Frases

tricotadas nos dias ímpares

09.07.22

A vida é um grande risco. Mas sem risco não há desenho.

Este país tem muito sol por fora e muita sombra por dentro.

Hoje em dia, no futebol como na política, cada derrota é uma vitória.

(agb)

30.04.22

Vou aonde me leve o vento

Ou o trinado de um pássaro

Ou a tua voz me chame

sob a luz do sol primaveril

a melancolia de um fim de tarde

uma noite de lua cheia

ou até escutar a chuva a cair

enquanto crepita a lenha na lareira 

Vou sempre aonde tu estiveres

com a luz de um sorriso a

receber-me, os braços abertos 

e o recorte de um beijo nos lábios

© António Garcia Barreto in "Escrever na água, desenhar no céu", poemas, no prelo

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