Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Viagens por dentro dos dias

Blog em torno de literatura, arte, viagens, etc.

Blog em torno de literatura, arte, viagens, etc.

11.03.24

Um dia, já lá vão muitos anos, uma professora portuguesa de uma escola próximo de Ourense, convidou-me para uma Festa Literária dedicada aos jovens, numa escola em que era professora, que decorrerira num fim-de-semana numa localidade perto daquela cidade Galega. Trocámos correspondência (ainda não havia emails nem telemóveis) acerca de alguns dos meus livros infanto-juvenis e ela até me falou que contavam também com a presença de Alice Vieira, que nessa época começava a ser muito conhecida devido ao seu livro "Rosa, Minha Irmã Rosa".

No sábado indicado, ao romper da aurora meto-me no carro com a minha mulher e lá fomos corresponder ao amável convite. A meio da manhã, centenas de quilómetros depois, chegámos à localidade galega. Estacionei o automóvel e procurei pelo colégio e pela professora. O colégio estava encerrado, da professora não havia rasto (vivia em Portugal, no Minho), e de Festa Literária na aldeia ninguém sabia. De Alice Vieira também não. Estava um dia esplêndido. Não me senti enganado, eu conhecia a professora, mas a verdade é que algo correra mal. Aproximava-se a hora de almoço. Encontrámos um restaurante familiar com uma agradável ementa, a começar por uma cativante tábua de queijos. Depois do almoço, metemo-nos no automóvel e regressámos a Lisboa como se fosse logo ali ao lado. A despesa foi grande, mas eu corria por gosto. Não me lembro, hoje, com exatidão, qual foi a explicação que a professora me deu, mais tarde, quando a interpelei um pouco aborrecido. Teria tido a ver com a alteração da data da Festa Literária e alguém se esquecera de me avisar. Foi a partir daí que comecei a perceber que trabalhar de borla saía caro.

Trabalhar e descansar

Estórias que se contam

22.11.23

Certo dia um homem viu o historiador Alexandre Herculano, de enxada na mão, a trabalhar umas terras na sua Quinta de Vale de Lobos. Cumprimentou-o.

- Bons-dias, senhor Alexandre Herculano. Então, a trabalhar logo de manhã.

- Não estou a trabalhar, estou a descansar - respondeu Herculano.

Dias depois o mesmo homem voltou a passar pelo mesmo local encontrando Herculano sentado numa cesta de apanha de azeitona, encostado a uma porta.

- Bons-dias senhor Alexandre Herculano. Hoje está a descansar.

- Não estou a descansar, estou a trabalhar.

Crónica de Ventimiglia

Antigamente, no verão

02.08.23

Numa viagem de férias em companhia de amigos, num velho VW carocha, muito antes da existência do Espaço Schengen, ao atravessarmos a fronteira entre a França e a Itália, idos do Mónaco e de Menton, a polícia mandou-nos parar. Simpáticos, os guardas ficaram muito admirados de verem portugueses por ali. Éramos uma espécie rara, naquela época, fora do espaço ibérico. Fizeram-nos algumas perguntas e evocaram o vinho do Porto, mostrando-nos que conheciam alguma coisa de Portugal (estranhei não evocarem o Benfica, que tinha sido bicampeão europeu). Como o carro ia na reserva ou quase, perguntámos se o posto de combustível ficava longe. A resposta foi:

– Ventimiglia.

Trocámos olhares, um pouco desolados.

– Vinte milhas são mais de trinta quilómetros – comentámos, em uníssono. – Vai ser apertado.

Metemo-nos à estrada, devagar, para poupar combustível. Ainda não tínhamos andado cinco quilómetros quando vimos um marco toponímico anunciando a próxima localidade: Ventimiglia. A nossa tradução à letra de italiano e o desconhecimento da região produziu asneira. Mas deu para andar todo o dia a rir à conta de ventimiglia.

17.07.23

IMG_1765.jpeg

O rapaz ia pela rua a mastigar pastilha elástica. Entrou na farmácia para levantar o medicamento para a avó. De repente, a pastilha colou-se-lhe ao céu-da-boca e à língua. Não conseguia abrir a boca, não conseguia falar. Fez um gesto para o velho farmacêutico, apontando a língua presa. O homem procurou os óculos de ver ao perto, mas não os encontrou. Aproximou-se do rapaz, meteu-lhe os dedos na boca e arrancou-lhe a língua.

© António Garcia Barreto in "Histórias de Bolso"

16.01.23

A gaja entrou-me no quarto como se me quisesse comer todinho, ali assim, desprevenido, como vim ao mundo, mas em formato atualizado. Fiquei a vê-la avançar de olhos brilhantes, seduzindo-me com a sua vozinha estrídula e as suas pernas longas. Quando se aproximou puxei o gatilho do spray e matei-a. Detesto melgas.

© António Garcia Barreto

Luísa de Jesus

a primeira serial killer portuguesa

09.01.23

A Pena de Morte foi abolida em Portugal em 1 de Julho de 1867. A última mulher portuguesa a ser condenada à morte por enforcamento (mas não só, como veremos adiante), foi Luísa de Jesus, de 24 anos, acusada de ter assassinado 33 crianças. Foram crimes hediondos contra bebés, que levaram a apontá-la como a primeira assassina em série portuguesa. Luísa de Jesus nasceu em Figueira do Lorvão, município de Penacova, em Dezembro de 1748, filha de Manoel Rodrigues e de Mariana Rodrigues, uma família de baixa condição social. Era recoveira de profissão, ou seja, uma mulher que percorria as aldeias comprando e vendendo mercadorias. Nesse tempo era comum existirem casas, sobretudo conventos e hospitais, com Roda de Enjeitados. Tratava-se de um engenho giratório em madeira, com a forma de roda, dividido ao meio. Servia para as mães, gente muito pobre ou com outros problemas, abandonarem aí os bebés fazendo-o com privacidade. Do lado de fora as mães deixavam o bebé, que depois era recolhido no interior por freiras dos conventos ou em serviço hospitalar. As mães tocavam uma sineta avisando, deste modo, a presença de um bebé na Roda, para que logo recebesse a atenção que merecia. Era aqui que entrava Luísa de Jesus. Ia buscar bebés abandonados na Roda de Coimbra, usando o seu nome verdadeiro ou outro, falso, com o intuito de se apoderar do enxoval da criança e receber 600 réis, valor dado pela instituição de cada vez que se ia buscar uma criança para a adoptar. Segundo os juízes que a condenaram, nunca no nosso país se tinha visto “um monstro de coração tão perverso e corrompido”. Luísa de Jesus foi condenada a percorrer as ruas com uma corda ao pescoço, enquanto os seus crimes eram lidos em voz alta. Depois, foi queimada com uma tenaz em brasa ("atenazada"), e teve as suas mãos decepadas. Finalmente, acabou por falecer no garrote, e o seu cadáver foi queimado pouco depois. Luísa de Jesus deixou um legado negro de morte e de terror que ficou para a história pelos piores motivos.

Fontes e mais informações em:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Luísa_de_Jesus e www.vortexmag.net/luisa-de-jesus-assassina-em-serie-portugal

21.12.22

Conta-se (Visita Guiada, RTP2) a história da imagem do Menino Deus roubado da Igreja com o mesmo nome naqueles anos conturbados a seguir à implantação da República. As irmãs de S. José de Cluny, que por volta de 1945 vão ocupar o edifício que é hoje o Centro Social do Menino Deus, sentem-se desiludidas por não terem no altar a imagem que dá nome à igreja. Ao lado, uma vez por semana, erguia-se a tradicional Feira da Ladra. Sabendo que na Feira se transacionavam peças de arte antiga, algumas irmãs decidem percorrer a feira várias vezes, em dias diferentes, tentando saber se alguns dos feirantes se lembrava da peça de arte sacra que procuravam. Ao cabo de muito porfiar alguém lhes disse que a peça tinha sido adquirida por um advogado de Évora, décadas atrás. As irmãs-detetives deslocaram-se então a Évora tentando saber onde morava o tal advogado. Conseguindo encontrá-lo, falaram-lhe na situação e de quanto gostariam de ver a imagem no lugar que lhe pertencia, o altar da Igreja do Menino Deus. O advogado foi sensível à questão e acabou por devolver a imagem ao seu lugar de origem, dizendo que o Menino Deus fizera a sua família feliz durante tantos anos, que seria agora altura dessa benção passar para a Igreja do Menino Deus para felicidade das irmãs de S. José de Cluny, em serviço no Centro Social anexo.

18.12.22

António_Spínola.jpg

Conta-se uma estória muito curiosa num livro (Nuno Castro, "Heróis do Ultramar", 3.ª ed., Oficina do Livro, Alfragide, 2019) que aborda aspetos e personalidades em destaque na Guerra Colonial Portuguesa, que decorreu entre 1961 e 1974. Na introdução do livro refere-se que o furriel Luís Melo Correia, aprestando-se para vir à Metrópole em gozo de férias, recebe um pedido do General Spínola. Solicitava-lhe o general que no regresso de Lisboa lhe trouxesse as lentes do seu monóculo. Luís Melo Correia cumpriu a ordem (ou o pedido). Mas não conseguiu travar o gesto de experimentar as lentes. Foi com surpresa que concluíu não passarem de vidros sem qualquer graduação. Ou seja, o General Spínola usava-os como adereço da sua imagem de militar e homem público. Seria assim?

01.12.22

- Éramos todos bons rapazes, mas uns piores do que os outros - confessou o Padre Angústias, num dia em que se deu a rememorar o seu passado no seminário. - O pior de todos chegou a bispo. E se não fosse um jantar demasiado pesado, a seguir ao qual se tomou de amores por uma prima virgem, do lado do zodíaco, teria conseguido o barrete cardinalício.

(agb)

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D