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mar de magoito

Blog de António Garcia Barreto. Literatura & etc.

Blog de António Garcia Barreto. Literatura & etc.

23.09.21

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Hoje, levado pela leitura de uma página do livro "A cidade nervosa", de Enrique Vila-Matas, relatando o seu encontro com a escritora Marguerite Duras, dei por mim a ir buscar todos os livros que possuo desta escritora e realizadora francesa, e rememorar alguns dos seus livros. Por exemplo, "Barragem contra o Pacífico" (Prémio Goncourt, 1984), "O marinheiro de Gibraltar" e "A vida material", entre outros livros cuja escrita de Duras sempre me cativou. Recordo ainda o belíssimo filme "O Amante" extraído do romance "O amante da China do norte" realizado por Jean-Jacques Annaud, em 1992 (episódios no YouTube). A escrita de Duras está muito marcada pela sua infância e adolescência em Saigão (hoje Ho Chi Minh), antiga Indochina Francesa, onde a mãe era professora e os dois irmãos pessoas de personalidades completamente opostas: o mais velho, um marginal, jogador e consumidor de ópio; o mais novo, um rapaz sensível, que o mais velho repudiava, e Duras adorava. Os livros de Marguerite Duras são o testemunho de um tempo, de uma paixão adolescente, de uma vivência pessoal levada aos limites. Vale muito a pena ler a sua obra, ver os filmes que realizou, sem esquecer o filme de Jean-Jacques Annaud, que capta de modo sublime um primeiro contacto com o amor, físico e emocional, uma paixão, um ambiente, um lugar, uma época.

14.04.21

Houve um tempo (antes da pandemia) em que as pessoas, com algumas posses e muita curiosidade, passavam parte das suas férias ou da sua reforma viajando pelo mundo, captando com os seus smartphones imagens de monumentos, paisagens, locais, etc. Por vezes, ao tirar uma fotografia o que mais se apanhava era um ramalhete de pessoas também elas a tirar fotografias a um monumento: à Torre de Pisa, por exemplo, ou ao Grande Canal, em Veneza, sei lá. A nossa fotografia espelhava a fotografia dos outros turistas, nisso que é depreciativamente designado como turismo de massas. A pandemia cerceou quase na totalidade essa possibilidade de ser feliz. Ou de dar espaço a que um pouco de felicidade se manifestasse dentro de cada um de nós. Diz-se que a felicidade não tem história. Mas a infelicidade tem. Esta pandemia que nos calhou em azar viver (ou morrer) pode ser vista como um momento, não digo trágico, porque há piores momentos na História do Mundo, mas um momento de infelicidade coletiva atual. Ainda não é do domínio da História, mas é da Sociologia. Não percamos, todavia, a esperança, pois ela é o único sentimento (único mal, diz o mito) que ficou na Caixa de Pandora. Todos os outros males libertaram-se da Caixa e andam pelo mundo a fazer das suas. Como a pandemia atual.

03.04.21

Isaltino de Morais criou, anos atrás, em Oeiras, um elevador não tripulado chamado SATU, que ligaria a estação de CF de Paço de Arcos ao Lagoas Park, Tagus Park e ao Cacém, numa fase ulterior. O simpático monstro que circulava sobre as nossas cabeças nunca passou do Shopping de Oeiras, ou seja, não ligava a lado nenhum. Terminava abruptamente junto ao shopping. Acabou por ser um enorme flop. A gestão camarária anterior encerrou a circulação do SATU. Quando destas últimas eleições falou-se que o SATU ia finalmente tomar caminho e servir as áreas inicialmente previstas. Soube-se depois que não seria assim. Não vai haver mais SATU. Dizem que roubaram os cabos. E agora? O inestético e inútil corredor onde circulava o SATU fica ali, formoso elefante branco, pairando sobre as nossas cabeças em forma de betão armado com carris? Com a obra atual junto à chamada "rotunda do Isaltino", que pretende desviar (e bem) o tráfego para a A5, junta-se o corredor inútil com o viaduto a envolver num abraço de cimento o Shopping Oeiras Parque. Uma beleza de arquitetura paisagística.

03.04.21

Num país de lombas e rotundas – a obra emblemática dos nossos autarcas – os automobilistas passam a vida aos pulos e a andar à roda. É recreio em nome da segurança. Porque quando eu acabo de passar duas lombas seguidas numa rua direita e entro noutra a descer, num dia ventoso, e vejo um contentor de lixo passar à minha frente em acelerada velocidade, obrigando-me a uma travagem de emergência, isto já não é recreio. É insegurança sem lombas. O contendor devia estar travado em espaço próprio. E as lombas anteriores não fazem lá falta nenhuma.

01.04.21

Um dia, numa ida ao dentista, a médica que me assistia disse-me que um dos meus dentes do siso, do qual não tinha queixas, estava a babar uma purulência qualquer não visível a olho nu. Só a radiografia à boca revelou a situação. Havia que extrair o dente. Marcámos dia e hora. Lá me apresentei. Sentei-me na cadeira, bochechei a boca e a médica anestesiou-me a zona. Passado pouco começou a extrair o dente do siso. Surge um problema. A médica não tinha força para fazer a extração (situação idêntica ocorreu de outra vez com outra médica com o outro dente do siso). Então a médica chama um colega da sala ao lado, um tipo mastodonte. Mais anestesia. O mastodonte encosta a barrigona à minha cadeira, dá um puxão com o extrator, os meus óculos voam do meu rosto aterrando no colo da médica que estava sentada ao meu lado, e o dente ficou no mesmo sítio, embora já um pouco abalado. Vem outro médico, mais novo, repete o gesto e o dente nem mexeu. É então que a médica se lembra de chamar um colega brasileiro de outra sala (era uma clínica grande, de uma grande companhia), que possuía um extrator feito por ele ou por ele aperfeiçoado. O médico brasileiro apareceu sentou-se ao meu lado, usou o seu extrator com saber e subtileza e extraiu-me o dente com mãozinhas de veludo. Não houve palmas para o médico. Mas todos reconheceram que o seu extrator era uma maravilha. Neste jogo clínico Portugal perdeu 3 - 1 com o Brasil.

31.03.21

Era domingo. Alvores do dia. Primeiro chegou ela. Abriu a malha de rede que vedava todo o prédio em construção e, num passo demasiado inseguro, subiu pela escada interior em cimento e chegou ao telhado, à altura de um terceiro andar. Aí sentou-se no vértice das abas do telhado, deixando de lado a mochila e uma lata quase vazia de um qualquer refrigerante. Acendeu um cigarro ou uma ganza, e ficou a olhar o rio largo, duzentos metros à sua frente, que refletia os primeiros raios da alvorada. Passado uns vinte minutos chegou ele, mochila ao ombro, passo trocado. Do alto onde se encontrava ela vi-o chegar e veio à aba do telhado indicar-lhe onde ficava a entrada sem porta do prédio. Ele subiu não sem antes abrir a porta do WC de rua que servia, em dias de trabalho, os operários. Chegado ao telhado, deixou cair a mochila e não se aguentando sobre o vértice que unia as telhas caiu de costas. Passado pouco arrastou-se sentando-se ao lado da parceira. Era-lhe muito difícil controlar os movimentos. Ficaram ali a fumar, a mascar palavras, enquanto olhavam as águas do rio. Passaram duas horas e o sol incidia forte sobre o telhado de chapa metálica. Ela deitou-se no plano inclinado das telhas e adormeceu. Pouco depois, ele tentou fazer o mesmo, caiu de lado e assim ficou a dormir atravessado sobre as telhas. A noite metera certamente muita bebida, muitos shots, ganzas, muitos voos interiores. 

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