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Viagens por dentro dos dias

Blog de António Garcia Barreto. Literatura & etc.

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20.05.20

Na linguagem de todos os dias, a noção de hedonismo designa uma inclinação amoral pela vida dada ao prazer, senão ao vício. O que é inexacto, claro: Epicuro, o primeiro grande teórico do prazer, compreendeu a vida feliz de uma maneira extremamente céptica: experimenta prazer aquele que não sofre. É o sofrimento que se torna assim a noção fundamental do hedonismo: somos felizes na medida em que sabemos afastar o sofrimento; e como os prazeres trazem muitas vezes mais infelicidade do que felicidade, Epicuro recomenda apenas prazeres prudentes e modestos. A sabedoria epicuriana tem um travo melancólico: lançado na miséria do mundo, o homem comprova que o único valor evidente e seguro é o prazer, por magro que seja, que ele próprio possa experimentar: um gole de água fresca, um olhar para o céu (para as janelas de Deus), um afago.

Milan Kundera in “A Lentidão”, Edições ASA, Porto

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