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06
Mai21

É Perigoso Brincar com os Beijos (abertura)

por António Garcia Barreto

Olhei para Conchita estendida no areal, em reduzido biquíni, e não senti sombra de desejo. Não me interroguei sobre as razões desse desencanto, nem lhe conferi qualquer significado. Entre mim e ela todas as descobertas estavam cumpridas, todas as emoções experimentadas, todos os mistérios desvendados. O fogo que lavrara forte à superfície da pele extinguira-se, entrara numa fase de rescaldo. Era natural. Sem amor não é possível amar. De início, fora diferente. Pensar em Conchita excitava-me como nos meus tempos de adolescente. Era uma mulher lindíssima, sensual, com traços de crioula, de olhos que escondiam segredos por revelar, senhora de um corpo a pedir elogios.

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De personalidade forte, percebia-se que estava habituada a lidar com a vida sem subterfúgios nem cenas melodramáticas. O problema é que as mulheres como Conchita cansavam-me, desiludiam-me, pouco depois de conhecê-las. Tinham gostos e interesses aparentemente supérfluos, gastavam demasiado dinheiro em roupas e objetos inúteis, não aprofundavam conversas, não falavam do passado nem perspectivavam o futuro. O presente circunscrevia-se a frases feitas, adereços de moda e divertimento. Viciada em jogo, sapatos e roupa, Conchita fumava bastante e bebia vodkas-martinis a toda a hora. O seu anfitrião preferido era o barman do hotel. Eu olhava para ela e via-a sempre de copo numa mão e cigarro na outra. Gastava muito tempo e dinheiro no cabeleireiro, no ginásio e no spa. Uma vez perguntei-lhe, num momento de distração, o que a levava a fechar-se numa sala a tresandar a suor de marcas diferentes e a correr, como uma louca, numa passadeira; ou a deixar que lhe amassassem o corpo com unguentos e pedras, quando a natureza fora simpática com ela. Respondeu-me que adorava o exercício físico, e a massagem reabilitava-a. Compreendi. Além disso, acrescentou, gastar dinheiro aumentava-lhe o astral. Aqui não compreendi tão bem. Aumentava-lhe o astral? Bom, deixei de lado. O remate da conversa fez-me pensar. Gastar dinheiro fazia-a esquecer a infância infeliz, em que faltara tudo, até o amor. Deve ter sido a única vez que falou verdade comigo. Não a criticava. Ela podia fazer da vida o que bem entendesse, desde que não o fizesse com o meu dinheiro. Disse para comigo: Osvaldo, vamos acabar com isto. Foi bom, mas very expensive. A propósito: Osvaldo Ventura sou eu. Muito prazer.

Astrolábio Edições, Fev. 2021


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