28.04.24
No bairro acontecem coisas estranhas, daquelas que as pessoas adjetivam com a palavra estrambólicas. Não se trata de gatos a miar à lua cheia, ou de cães a ladrar quando ouvem barulhos que não controlam, nem de vozes que chegam do Além, que atemorizam mesmo os intimoratos domadores de leões nas selvas das cidades. Não, não é nada disso. São mesmo coisas difíceis de explicar. É o que diz a menina Eva, locatária do 2.º andar do prédio construído por um pato-bravo nos anos 70, ali para os lados da Brandoa. Ela houve expressões de amor, de alegria, de felicidade. Porém, só ela é que ouve coisas bonitas. Os outros queixam-se do catarro do senhor Bentes, das discussões dos Flores, da música em altos berros expelida através da janela aberta de um brasileiro fã de Elba Ramalho. E há também os bebedores de minis da taberna do rés-do-chão do prédio, que discutem futebol como se estivessem no estádio a invetivarem os jogadores da equipa contrária. Mas nada disto é estranho num velho bairro onde moram reformados de fábricas, doentes crónicos, drogados, bêbados e mulheres com cortes de cabelo masculino, para mais facilmente lavarem a cabeça em casa. O que é mesmo estranho é o senhor Belarmino teimar que aterram OVNIs no seu quintal desde que viu o filme ET cinco vezes na televisão. O senhor Belarmino tem 100 anos. Pode dizer o que quiser. A Polícia já foi chamada várias vezes e não constata nada de estranho. Quer dizer: a existência de OVNIs. O que a Polícia estranha é a menina Eva ouvir expressões de amor, de alegria e de felicidade no meio da algazarra geral do prédio. A menina Eva já foi levada por duas mulheres-polícias para uma conversa informal na esquadra. A Polícia está desconfiada que na casa dela funciona um bordel. Não um bordel qualquer. Um bordel em que mulheres desocupadas e com maridos ausentes, em viagens de negócios, recebem rapazes que passam as manhãs a exercitarem-se num ginásio e as tardes a distribuir felicidade a preços exorbitantes. A Polícia diz não ter provas de nada. Talvez não as procure, diz Dom DeLucas, o poeta do bairro, que leu todos os livros de Charles Bukovski. Também é muito estranho que a menina Eva conduza um Mercedes descapotável, embora démodé, e passe as noites fora do bairro, numa moradia apalaçada, servida por uma criada praticante de wrestling. Também são estranhos os comentários sobre a menina Eva ter um caso com o chefe da esquadra que superintende no bairro. Todos sabemos como é o povo para inventar boatos. Mas há sempre verdades escondidas, como o bicho na fruta.
© António Garcia Barreto