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Viagens por dentro dos dias

Blog sobre tudo e sobre nada. Em particular, em torno de literatura, arte, viagens.

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Lisboa, a sala de espera

Um trecho do meu novo romance


15.08.25

Sara Cohen estava sentada no bar do Hotel Suisso-Atlantico, usando óculos de lentes fumadas, como uma atriz de cinema posando para o seu público. Tomava chá e lia uma revista disponível num escaparate à entrada do bar. Esteve assim largos minutos. Depois levantou-se para devolver a revista ao escaparate. Parecia não ter pressa. Vestia saia castanha e uma blusa branca de algodão, com mangas compridas. Calçava sapatos abotinados num tom cinza claro. Sobre a cadeira repousava um casaco no mesmo tom da saia. Se Alberto a visse, naquele momento, diria que estava linda como sempre. Naquela época, porém, não se podiam revelar sentimentos em público. A não ser que se fosse estrangeiro. Estávamos em plena II Guerra Mundial.

António Garcia Barreto


17.07.25

A minha mãe estava na casa dos oitentas e muitos. Vivia sozinha, num rés-do-chão. Não. Vivia ela e os seus pensamentos. Quando fomos morar para aquela casa, havia ainda poucos automóveis. Ela chegava à janela, via toda a praça, aproveitava e falava com alguma vizinha, que estivesse de passagem. O parque automóvel aumentou muito ao longo dos anos e agora estacionavam em cima do passeio, defronte da janela. A minha mãe estava sempre a reclamar. Chegava à janela e só via automóveis e carrinhas que lhe tapavam a visão. 

Eu tinha por hábito visitá-la a seguir ao almoço. E lá fui mais uma vez. Ela estava  sentada por detrás da janela, como era hábito, depois de tomar o seu frugal almoço. Invariavelmente, era peixe cozido ou um hambúrguer com arroz. Cheguei-me à janela e ela estava com a cabeça de lado e a boca vermelha. Bati nos vidros várias vezes. Não deu acordo de si. Pensei o pior. Não tinha chave de casa da minha mãe. O que vou fazer?, pensei com o coração acelerado. Fui bater à porta da vizinha. Pedi-lhe para me deixar ir ao seu quintal e saltar para o quintal da minha mãe. O muro era alto e eu tinha cinquenta anos. Não foi fácil. Do outro lado, eu sabia que a porta do quintal, que dava para a cozinha, estava sempre encostada. Empurrei a porta e dirigi-me à sala de jantar onde a minha mãe costumava sentar-se à janela depois do almoço. 

— Mãe! — exclamei, de coração apertado, ao entrar na sala.

Ela abriu os olhos e disse:

— Meu filho!

— Tens sangue na boca, mãe?

— Não, filho. Vim a comer um morango para a janela. Não é sangue, é o resto do morango. Adormeci.

António Garcia Barreto in "Pescar à Linha"

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