Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Viagens por dentro dos dias

Blog sobre tudo e sobre nada. Em particular, em torno de literatura, arte, viagens.

Blog sobre tudo e sobre nada. Em particular, em torno de literatura, arte, viagens.


11.12.21

Sabe-se hoje que a possibilidade de fazer comentários estultos e escrever futilidades é uma realidade filha das redes sociais e de um jornalismo sem referências. Não só, mas sobretudo. Os DDT em todo o mundo sabem bem que para continuarem a obter lucros insultuosos numa sociedade democrática, em que as pessoas têm acesso geral ao Ensino e à Cultura, precisam de transformar esse Ensino e essa Cultura em algo básico e alegórico. A classe média atual, cuja vida assenta numa socidade dominada por minorias aguerridas e pela civilização do espetáculo e do politicamente correto, sente-se com direito a tudo, mas o tudo a que acede tem pouca qualidade. É apenas fogo-fátuo. Entre os muitos exemplos desse tipo de sociedade que vive em liberdade uma vida de insignificâncias com apelos de primeira página, estão coisas como esta: "Estudo conclui que quem usa mais emojis faz mais sexo". Qual a utilidade e o interesse do estudo? Leva-nos a quê? Isto é apenas um exemplo de como os DDT, através dos seus peões, nivelam por baixo a sociedade em que vivemos.


05.12.21

Existe hoje em dia uma grande promoção das aldeias tradicionais. Aldeias com casas de xisto, onde dificilmente entra um carro nas suas ruas históricas. Há gente a recuperar essas casas, sobretudo a pensar no turista estrangeiro que percorre todo o país à procura daquilo que é genuíno, tradicional, ou que a publicidade assim lhes vende. Na verdade, observado pelo olhar dos drones, mais que pelo calcorrear das suas ruas e veredas acanhadas, o conjunto de arquitetura simples, empoleirado na aba das serras, cativa, deixa nas pessoas uma imagem de calma, de fruição da natureza, de paz. Não obstante, essas aldeias estão desertas, ou quase, os acessos são difíceis e a caminhada pelas suas ruas íngremes não é fácil, em particular para alguém que decida lá morar em permanência. Claro que há quem veja uma oportunidade de transformar as casas recuperadas em alojamento local. Mas será difícil habitar nessas aldeias. Os tempos são outros. Os jovens têm a sua vida profissional nas cidades e vilas do país, onde existem estruturas de apoio social indispensáveis à vida atual. Não vejo que a beleza do conjunto e a localização privilegiada e agradável seja suficiente para estas aldeias serem mais do que um postal ilustrado, um motivo para visitas turísticas sazonais, uma chamada de atenção num jornal regional, ou mesmo num órgão de divulgação nacional, uma reportagem na TV. As aldeias de xisto são um museu ao ar livre, pouco mais do que isso. 


18.11.21

Houve um tempo em que as capas dos livros publicados em Portugal tinham, em regra, a assinatura de um artista gráfico. Não significa isto que todas as capas fossem bem conseguidas, ou do agrado geral. Mas eram capas produzidas tendo em conta o teor do livro. Havia capas mais discretas, em particular nos livros de poesia, e outras mais enfáticas na cor e no design, mas não perdendo de vista o tema da obra que iria encapar. Hoje em dia, com uma indústria do livro baseada em conglomerados empresariais, a produção entrou numa espécie de enchimento de chouriços. Excessivas publicações destinadas em grande parte a um público leitor pouco informado e com fraca literacia. Desceu o nível das obras publicadas, incluindo o grafismo de capas. Ainda há pouco peguei numa edição de "O Livro", de Cesário Verde, publicado por uma editora transnacional, em que a capa nada deixava adivinhar sobre o conteúdo da obra. Essa capa apresentava um recorte que identifiquei como sendo, estou em crer, de uma pintura de Vincent Van Gogh, intitulada "Ciprestes". O que tem a ver essa capa com "O Livro" de Cesário Verde? Outra editora publicou o nosso clássico romance "Os Maias", de Eça de Queiroz, com uma capa em que o título parece um puzzle de palavras: OS/MAI/AS. Vale tudo porque o mercado não é exigente? Contou-me um editor a história de uma edição mais antiga, também de "Os Maias", impressa em Barcelona, que chegou ao editor com a imagem de um pirâmide da civilização Maia na capa. Como foi possível? Neste caso a edição foi destruída. E é isto.


14.11.21

Porque razão não gosto de osgas? Não é por serem feias, até porque hoje o feio é bonito desde que seja politicamente correto. Não gosto de osgas por causa daquela capacidade de ficarem agarradas às paredes horas seguidas sem darem um passo, mexerem a cabeça, comunicarem. Parecem as estátuas vivas que se plantam nas praças públicas vestidas de anjo ou de demónio, sem bulir uma sobrancelha, com um cestinho na frente para receberem o óbulo dos passantes. Depois as osgas são peçonhentas, segundo o meu amigo Zacarias que não percebe nada de horta. Diz ele, ainda, que elas papam mosquitos e outro insetos perturbadores, mas que não me perturbam tanto como a Dona Osga. Perturbar não é bem a palavra. Irritam-me. E irritam-me porque, ao contrário dos crocodilos, que também gostam de se manter imóveis num desprecupado farniente mentiroso de olho posto numa presa distraída, estes de vez em quando sorriem, metem-nos medo, açoitam as águas com a cauda. A osga, não. É um bicho sem utilidade que apenas serve de inspiração quando queremos chatear um tipo que não conhecemos dizendo: - Tens cara d'osga, pá!


03.11.21

Conheço razoavelmente a ilha da Madeira onde estive em várias ocasiões. Fiquei agora a conhecê-la melhor ao assistir a um programa da RTP2 intitulado "As freguesias da Madeira". O programa mostra a ilha fora dos principais centros turísticos, dispersa por 11 municípios e 54 freguesias (uma no Porto Santo). Porquê esse exagerado número de freguesias, algumas com apenas 700 residentes? Houve no Continente uma reorganização administrativa que agrupou várias freguesias. Porque não aconteceu o mesmo nesta Região Autónoma? A principal razão, julgo eu, tem a ver com a unidade administrativa freguesia ter, na ilha, um grande impacto enquanto fornecedora de emprego. Pode-se justificar, também, esse número exorbitante de freguesias num pequeno território com a difícil orografia da Madeira. Mas é aí que este programa da RTP2 nos facilita uma resposta. Alberto João Jardim dotou-a com uma rede viária fundamental para as comunicações em toda a ilha, rasgando espaços, abrindo túneis, construindo viadutos e colocando alguns teleféricos em locais que o exigiam. Circulando por essas vias, como eu circulei, observando do espaço todo esse emaranhado de vias e túneis que ligam com facilidade os lugares mais recôndidos à capital e a outros locais, é difícil justificar, hoje, o exagerado número de freguesias com a acidentada orografia da região. Resta-nos a questão das freguesias serem um importante polo de emprego e dinamização local. Os madeirenses lá saberão o que é melhor para eles. O que não posso deixar de referir é que existia uma ilha da Madeira antes de Alberto João Jardim, e outra depois. Ou seja, passe o exagero, a Madeira é O Jardim.


23.09.21

unnamed.jpg

Hoje, levado pela leitura de uma página do livro "A cidade nervosa", de Enrique Vila-Matas, relatando o seu encontro com a escritora Marguerite Duras, dei por mim a ir buscar todos os livros que possuo desta escritora e realizadora francesa, e rememorar alguns dos seus livros. Por exemplo, "Barragem contra o Pacífico" (Prémio Goncourt, 1984), "O marinheiro de Gibraltar" e "A vida material", entre outros livros cuja escrita de Duras sempre me cativou. Recordo ainda o belíssimo filme "O Amante" extraído do romance "O amante da China do norte" realizado por Jean-Jacques Annaud, em 1992 (episódios no YouTube). A escrita de Duras está muito marcada pela sua infância e adolescência em Saigão (hoje Ho Chi Minh), antiga Indochina Francesa, onde a mãe era professora e os dois irmãos pessoas de personalidades completamente opostas: o mais velho, um marginal, jogador e consumidor de ópio; o mais novo, um rapaz sensível, que o mais velho repudiava, e Duras adorava. Os livros de Marguerite Duras são o testemunho de um tempo, de uma paixão adolescente, de uma vivência pessoal levada aos limites. Vale muito a pena ler a sua obra, ver os filmes que realizou, sem esquecer o filme de Jean-Jacques Annaud, que capta de modo sublime um primeiro contacto com o amor, físico e emocional, uma paixão, um ambiente, um lugar, uma época.


14.04.21

Houve um tempo (antes da pandemia) em que as pessoas, com algumas posses e muita curiosidade, passavam parte das suas férias ou da sua reforma viajando pelo mundo, captando com os seus smartphones imagens de monumentos, paisagens, locais, etc. Por vezes, ao tirar uma fotografia o que mais se apanhava era um ramalhete de pessoas também elas a tirar fotografias a um monumento: à Torre de Pisa, por exemplo, ou ao Grande Canal, em Veneza, sei lá. A nossa fotografia espelhava a fotografia dos outros turistas, nisso que é depreciativamente designado como turismo de massas. A pandemia cerceou quase na totalidade essa possibilidade de ser feliz. Ou de dar espaço a que um pouco de felicidade se manifestasse dentro de cada um de nós. Diz-se que a felicidade não tem história. Mas a infelicidade tem. Esta pandemia que nos calhou em azar viver (ou morrer) pode ser vista como um momento, não digo trágico, porque há piores momentos na História do Mundo, mas um momento de infelicidade coletiva atual. Ainda não é do domínio da História, mas é da Sociologia. Não percamos, todavia, a esperança, pois ela é o único sentimento (único mal, diz o mito) que ficou na Caixa de Pandora. Todos os outros males libertaram-se da Caixa e andam pelo mundo a fazer das suas. Como a pandemia atual.


03.04.21

Isaltino de Morais criou, anos atrás, em Oeiras, um elevador não tripulado chamado SATU, que ligaria a estação de CF de Paço de Arcos ao Lagoas Park, Tagus Park e ao Cacém, numa fase ulterior. O simpático monstro que circulava sobre as nossas cabeças nunca passou do Shopping de Oeiras, ou seja, não ligava a lado nenhum. Terminava abruptamente junto ao shopping. Acabou por ser um enorme flop. A gestão camarária anterior encerrou a circulação do SATU. Quando destas últimas eleições falou-se que o SATU ia finalmente tomar caminho e servir as áreas inicialmente previstas. Soube-se depois que não seria assim. Não vai haver mais SATU. Dizem que roubaram os cabos. E agora? O inestético e inútil corredor onde circulava o SATU fica ali, formoso elefante branco, pairando sobre as nossas cabeças em forma de betão armado com carris? Com a obra atual junto à chamada "rotunda do Isaltino", que pretende desviar (e bem) o tráfego para a A5, junta-se o corredor inútil com o viaduto a envolver num abraço de cimento o Shopping Oeiras Parque. Uma beleza de arquitetura paisagística.


03.04.21

Num país de lombas e rotundas – a obra emblemática dos nossos autarcas – os automobilistas passam a vida aos pulos e a andar à roda. É recreio em nome da segurança. Porque quando eu acabo de passar duas lombas seguidas numa rua direita e entro noutra a descer, num dia ventoso, e vejo um contentor de lixo passar à minha frente em acelerada velocidade, obrigando-me a uma travagem de emergência, isto já não é recreio. É insegurança sem lombas. O contendor devia estar travado em espaço próprio. E as lombas anteriores não fazem lá falta nenhuma.


01.04.21

Um dia, numa ida ao dentista, a médica que me assistia disse-me que um dos meus dentes do siso, do qual não tinha queixas, estava a babar uma purulência qualquer não visível a olho nu. Só a radiografia à boca revelou a situação. Havia que extrair o dente. Marcámos dia e hora. Lá me apresentei. Sentei-me na cadeira, bochechei a boca e a médica anestesiou-me a zona. Passado pouco começou a extrair o dente do siso. Surge um problema. A médica não tinha força para fazer a extração (situação idêntica ocorreu de outra vez com outra médica com o outro dente do siso). Então a médica chama um colega da sala ao lado, um tipo mastodonte. Mais anestesia. O mastodonte encosta a barrigona à minha cadeira, dá um puxão com o extrator, os meus óculos voam do meu rosto aterrando no colo da médica que estava sentada ao meu lado, e o dente ficou no mesmo sítio, embora já um pouco abalado. Vem outro médico, mais novo, repete o gesto e o dente nem mexeu. É então que a médica se lembra de chamar um colega brasileiro de outra sala (era uma clínica grande, de uma grande companhia), que possuía um extrator feito por ele ou por ele aperfeiçoado. O médico brasileiro apareceu sentou-se ao meu lado, usou o seu extrator com saber e subtileza e extraiu-me o dente com mãozinhas de veludo. Não houve palmas para o médico. Mas todos reconheceram que o seu extrator era uma maravilha. Neste jogo clínico Portugal perdeu 3 - 1 com o Brasil.

Mais sobre mim

foto do autor

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D