A minha mãe estava na casa dos oitentas e muitos. Vivia sozinha, num rés-do-chão. Não. Vivia ela e os seus pensamentos. Quando fomos morar para aquela casa, havia ainda poucos automóveis. Ela chegava à janela, via toda a praça, aproveitava e falava com alguma vizinha, que estivesse de passagem. O parque automóvel aumentou muito ao longo dos anos e agora estacionavam em cima do passeio, defronte da janela. A minha mãe estava sempre a reclamar. Chegava à janela e só via automóveis e carrinhas que lhe tapavam a visão.
Eu tinha por hábito visitá-la a seguir ao almoço. E lá fui mais uma vez. Ela estava sentada por detrás da janela, como era hábito, depois de tomar o seu frugal almoço. Invariavelmente, era peixe cozido ou um hambúrguer com arroz. Cheguei-me à janela e ela estava com a cabeça de lado e a boca vermelha. Bati nos vidros várias vezes. Não deu acordo de si. Pensei o pior. Não tinha chave de casa da minha mãe. O que vou fazer?, pensei com o coração acelerado. Fui bater à porta da vizinha. Pedi-lhe para me deixar ir ao seu quintal e saltar para o quintal da minha mãe. O muro era alto e eu tinha cinquenta anos. Não foi fácil. Do outro lado, eu sabia que a porta do quintal, que dava para a cozinha, estava sempre encostada. Empurrei a porta e dirigi-me à sala de jantar onde a minha mãe costumava sentar-se à janela depois do almoço.
— Mãe! — exclamei, de coração apertado, ao entrar na sala.
Ela abriu os olhos e disse:
— Meu filho!
— Tens sangue na boca, mãe?
— Não, filho. Vim a comer um morango para a janela. Não é sangue, é o resto do morango. Adormeci.
António Garcia Barreto in "Pescar à Linha"