Havia uma casa velha, derrotada. Eu estava dentro da casa e tinha medo. Medo de quê? Não sei explicar. Não sabia explicar. A verdade é que estava sozinho. Eu e o espelho do corredor que me devolvia uma figura assustada. Estar sozinho, em criança, mete medo. Do exterior vinham uns sons: piar de galinhas, cantar de galo, a espaços, água a pingar e não era chuva. Talvez uma torneira mal fechada. Depois ouvi duas vozes de adultos, homem e mulher, que gritavam um com o outro. Mas não estavam dentro de casa. Dentro de casa estava apenas eu, sozinho, cada vez com mais medo sem saber por quê. Foi então que um anjo se aproximou de mim. A minha mãe costumava falar de anjos. E este anjo tinha o rosto de minha mãe.
- O que se passa, filho?
- Tenho medo.
- Medo de quê?
- Não sei explicar. Medo que o sol se esconda e não apareça mais.
- Isso não vai acontecer nunca, meu filho.